27 dic. 2013

Entrevista com Julieta Ojeda, do coletivo Mujeres Creando [Bolívia]

http://www.mujerescreando.org


Julieta Ojeda é integrante do Mujeres Creando (Mulheres Criando), uma organização anarquista de mulheres na Bolívia que tem sido uma voz radical dos direitos das mulheres antes e durante todo o tempo de Evo Morales na presidência do país. Entrevistamo-la na “Virgem dos Desejos”, o espaço cultural do Mujeres Creando em La Paz, em maio de 2012, no meio de diversas mobilizações sociais contra o Movimento Ao Socialismo (MAS; partido governante). Entre as mais destacadas dessas mobilizações está uma greve de médicos e profissionais da saúde em protesto pelo aumento da duração de sua jornada laboral. Outra se refere à uma estrada proposta para que passe através do Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS), uma reserva natural protegida e lar de comunidades indígenas nas terras baixas do país [A planificação da estrada e sua construção se puseram temporariamente suspensas em abril de 2013].

O que significam os conflitos atuais no país, em particular o referido ao TIPNIS, como expressão da política do governo do MAS ante os povos indígenas?

Julieta Ojeda: Em princípio Evo é um símbolo, enquanto homem indígena que chegou ao poder e assumiu o poderoso papel de presidente. Pelo fato de ser indígena se assume que defenderá os indígenas. Mas a relação que assumiu com as trinta e quatro nacionalidades indígenas diferentes que habitam a Bolívia revelam que ele não é um homem que se identifica com essa imagem. Dizem que é indígena, não? E sim, o é, mas se identifica principalmente com os cocaleros [agricultores de coca]. Nesse sentido não é indígena, senão um cocalero, e ele responde a esse setor. E há outra questão. Sob o governo do MAS há indígenas de primeira e autóctones de segunda classe. E outra questão é o do aymara-centrismo, já que os povos indígenas que têm algum valor neste governo se encontram no oeste e não os outros, os das terras baixas.

Ficou evidente para nós que Evo não vai ser um homem que respeita a natureza, quer dizer, que respeita a “Pachamama”, como tinha proposto em seu discurso. Seu governo tem um projeto desenvolvimentista, um mau projeto desenvolvimentista se preferir, já que os povos indígenas das terras baixas têm suas próprias formas de exploração racional e de gestão sustentável de seus recursos. Tem uma visão de desenvolvimento, mas um desenvolvimento que não destrói a natureza. E o governo de Evo Morales tem outra visão completamente distinta.

Como está fazendo o MAS para cooptar os movimentos sociais com o fim de manter e estender seu próprio poder político?

Julieta: O MAS tem penetrado em certas organizações e as dividiu. Entram nestes espaços do movimento social e criam divisões formando suas próprias organizações paralelas. Esta tem sido uma prática comum que o poder usa contra os movimentos sociais ou grupos opositores, o MAS não a inventou. A diferença agora é que aqueles que estão no governo também ocupam outros espaços no cenário político. Já não são um movimento social, mas seguem funcionando como um sindicato, ou um movimento, para seguir trabalhando a este nível de querer infiltrar-se em organizações e dividi-las.

Por exemplo, as divisões criadas no movimento indígena das terras baixas foram produzidos pelo MAS. O fizeram depois da oitava marcha contra a estrada através de TIPNIS. Havia unidade até então, obviamente houve desacordos e tudo mais, mas se havia preferido deixar de lado as diferenças para mostrar unidade. Mas depois do final da oitava marcha, o MAS começou a cooptar aos líderes e as comunidades no seio das organizações das terras baixas.

É o mesmo que fazem com outros conflitos sociais, como o recente com o setor médico, quando firmaram um acordo com os administradores da saúde, mas não com os próprios médicos. Portanto, converte-se em uma luta grande, já com pelo menos dois meses de conflito. Firmam um acordo com um grupo, e não com o outro, como tem ocorrido com os mineiros; e é isso o que fazem nos conflitos regionais, criando facções opostas aos que impulsionam as mobilizações. Assim que esta é uma prática permanente do MAS para gerar grupos paralelos para se opor aos ativistas.

No atual clima político, como vê o papel do Mujeres Creando e o impacto de seu trabalho?

Julieta: Temos logrado consolidar espaços, como esta casa mesmo, e também um certo grau de legitimidade social e de relevância política. Isto quer dizer que Mujeres Creando tem um lugar e um espaço dentro da sociedade, o que deve entender-se de um modo relativo. Porque é certo para algumas coisas e não para outras. Além disso, temos sempre tido um espaço na rádio, e também temos sido persistentes em nosso projeto político.

Ademais, temos tomado publicamente uma posição a respeito das políticas de Evo Morales, como no caso de TIPNIS e da oitava marcha, à qual nos unimos e apoiamos com todos nossos recursos. E assim temos sido muito críticos de alguns dirigentes e em defesa deste território e contra o projeto de estrada que cruzaria esse território, porque isso é jogar com o futuro.

Também temos criticado o machismo do presidente em várias ocasiões, assim como o machismo do governo em suas diferentes manifestações. Por exemplo, os intentos de organizar o concurso de Miss Universo na Bolívia. E tudo isto não o fazemos através de escritos, mas sim de ações públicas.

Estamos tratando de gerar um debate mais aberto, mais amplo sobre o tema do aborto. A Igreja se opõe e sacou todas suas armas para conseguir cancelar esta discussão. Neste caso, o governo de Evo Morales tem sido muito tíbio. Este é um governo muito conservador quanto aos direitos dos homossexuais e o aborto, ou qualquer coisa que tenha a ver com as mulheres ou os direitos das mulheres. Falam do que tem feito, como o que premia a mãe, um subsidio para as mães, mas que você tem que ser uma mãe para consegui-lo. Assim que uma vez mais reforça a ideia de que as mulheres só tem valor quando são mães.

Este governo realmente não nos vê como um inimigo, senão que somos como uma pequena pedra no sapato, uma irritação constante. Mas tampouco decidiram fazer algo contra nós, porque quando o governo decide que alguém é um inimigo, é terrivelmente vingativo, como o tem sido com os dissidentes, que tratam de enterrar politicamente. Mas estamos no papel já descrito e sem limitarmos a ser exclusivamente um adversário das políticas oficiais já que temos o nosso próprio projeto político, e isso é apenas só uma parte do que fazemos.


• Esta entrevista foi realizada por Benjamin Dangl & April Howard, e originalmente publicada em inglês (depois traduzida para o castelhano pelo periódico “El Libertario” da Venezuela), e faz parte de um livro que será lançado em breve, intitulado “Until the Rulers Obey: Voices from Latin American Social Movements”.

Tradução ao portugues por Caróu

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