7 nov. 2013

[México] A propósito das cada vez mais frequentes detençons e acçons repressivas contra o movimento anarquista

Chegou-nos na nossa caixa de correios este longo e intenso e reflexivo texto assinado por CNA México que esperam, tal como apontam, sirva para contribuir ao debate das estratégias antirrepressivas (recomendamos a sua leitura à ìntegra):

Este texto nom busca ser parte do discurso victimista tam usado por algumhas organizaçons e grupos sociais, apresentando aos companheiros que caem presos como víctimas inocentes, escandalizando-se diante da falta de liberdade e democracia e as terríveis violaçons de direitos humanos. Tampouco é um relato de lamentaçons de como o malvado Estado persegue e encerra aos pobres anarquistas.

Pretendemos, mais que tudo, através da reflexom de alguns actos repressivos que a simples vista podem parecer inconexos, analisar coincidências que nos permitam tratar de ir compreendendo e desmontando o funcionamento de alguns dos mecanismos que conformam as montagens midiático-policiais-judiciais, quanto de extrair alguns ensinamentos que nos sejam uteis no avanço dos diferentes projetos revolucionários.

Para nós nom tem sentido falar de montagens unicamente quando é evidente que as acusaçons som inventadas, pois a montagem nom se limita ao âmbito jurídico-legal, se nom que se fabrica desde e por outros elementos como o midiático, o qual joga um papel igual, ou inclusive mais importante que os outros na hora de apresentar ante a sociedade os activistas e luitadores sociais. Um dos primeiros problemas que se nos apresentam nas montagens é superar a falsa divisom entre “inocentes” e “culpados”, entre “bons activistas” e “vândalos”.

Para pensarmos que a solidariedade com perspectiva anticapitalista deve ter claro que termos como inocentes, culpados, prisom injusta, detençom arbitraria, uso excessivo da força, etc. alimentam e fortalecem o discurso do sistema e da autoridade. Quando é justificável a força? Quando umha detençom é justa? Como se justifica qualquer prisom?

Nossos companheiros nom devem estar na prisom, nom porque sejam inocentes, mas porque as prisons nom devem existir.

Nom podemos perder de vista que as montagens formam parte de umha estratégia do sistema e das classes dominantes para poder seguir perpetuando-se. Que formam parte de umha guerra contra a dissidência, e é sob esse prisma que a abordaremos; desde o contexto da guerra social ou de classes.

É ingênuo pensar em pedir que nom nos reprimam, pois a repressom é a arma que o sistema utiliza para a perpetuaçom da dominaçom e exploraçom. Isto significa que devemos permanecer estáticos, esperando o golpe final? Nós pensamos que nom.

Devemos entender que a repressom varia em intensidade e formas segundo as circunstâncias e que na medida em que podemos ver isso poderíamos desenvolver estratégias antirrepressivas mais eficazes que nos ajudem a ter umha prática revolucionária mais forte.

Esperamos que estas reflexons nos ajudem, pois, a elaborar essas estratégias tam necessárias e imprescindíveis. Nom necessitamos nem queremos mártires nem victimas, pois isto só nos mantém em um estado de imobilizaçom, ocupando-nos em outras tarefas. Pensamos que devemos estar na ofensiva desde diferentes frentes, e umha delas deve ser começar a desmontar as montagens.

A repressom tem várias finalidades, mas o que no fundo busca é converter em hegemônico um determinado sistema político-social, por isso a repressom contra a dissidência é constante. Por isso os actos repressivos se sucedem um depois do outro, acelerando o ritmo em certos momentos, mas nunca retardando-os o suficiente como para que nom tê-los presentes. A repressom pretende mandar mensagens. Assim, as montagens buscam ser estridentes, ruidosas, quanto mais espetaculares melhor, fazendo andar a maquinaria midiático-repressiva pois com isso se busca bloquear-nos, paralisar-nos, promover que nos vejamos como seres isolados incapazes de enfrentá-las.

Boa parte do êxito das montagens se baseia precisamente nessa sensaçom de isolamento, de desconhecimento do que vai passar, do que é que está passando, produzida pelo primeiro golpe das montagens. E se bem que cada caso tenha suas particularidades, existem aspectos que se repetem. As montagens som diferentes na aparência, mas bastante repetitivas no que é essencial. As partes que as compõem som sempre as mesmas, ainda que sua disposiçom ou momento de apariçom varie levemente se podem perceber de umha maneira concreta que nos permitem vê-las como som: composiçons pré-fabricadas para momentos e circunstâncias similares.

Como dizíamos, a finalidade da repressom é apresentar ao sistema e seus valores como umha entidade hegemônica, cuja presença deve ser algo nom só aceitada pola populaçom, se nom natural, polo que podemos afirmar que a atuaçom repressiva busca moldar as sociedades e povos à semelhança de sua estructura organizativa hierárquica.

Por isso se busca apresentar e assimilar toda dissidência com umha organizaçom hierárquica similar à estatal. Assim, frente à figura do líder/governante se modela um líder/dissidente que o enfrenta. Nom importa que por sua própria natureza e dinâmicas várias de estas dissidências sejam alheias a essas estruturas: o movimento anarquista é clara mostra disso, pois em seu seio nom tem cabimento líderes nem chefes. Mas na falta de um líder real, som as instituiçons que participam das montagens que os elegem, convertendo-os em cabeças visíveis. Assimilar todo gesto de desobediência a umha estructura hierárquica, na qual existem organizadores e/ou instigadores serve ao sistema para negar a possibilidade de rebelar-se e organizar-se fora de umha estrutura vertical. Serve para negar a capacidade de organizar autônoma e horizontalmente, assim como um conflito social latente, a raiva e a fúria estendidas a amplos setores da populaçom.

Como mencionamos, as montagens formam parte de uma estratégia de guerra, umha guerra na qual o sistema tem como objectivo exterminar toda dissidência, e na busca desse objectivo abre mam de todos seus recursos, legais e extralegais. Suas instituiçons nom podem se limitar a actuar dentro do marco ”legal”, já que este se resulta demasiado rígido para actuar rapidamente segundo as circunstâncias. O importante é dar um golpe de efeito rápido e pronto, já que haverá tempo depois para acomodar o caso dentro dos limites legais. Para isso estám os ministérios públicos e juízes.

O que se busca é gerar medo, pois é o medo a base e sustento das montagens. A ideia central é apresentar as dissidências como umha ameaça para a sociedade, umha ameaça repentina, mas que graças à oportuna acçom do Estado, se consegue neutralizar.

Assim, pois, o papel fundamental das montagens é propagandístico, e para isso contam com os meios de comunicaçom em massa. Como dizíamos, as montagens buscam ser estridentes, espectaculares. Isso podemos constatar se comparamos o reduzido número de companheiros que sofrem estas montagens e o papel que tomam os meios de comunicaçom em massa. Seleciona-se a companheiros ou organizaçons conhecidas no entorno e sobre eles recaem a repressom e os ataques que se lançam desde a mídia. Desata-se entom umha campanha midiática que acompanha e fortalece a montagem jurídica, se trata de apresentar ao dissidente como um ser perigoso, antissocial, tentando misturar as coisas e apresentar aos que luitam e se organizam como responsáveis dos problemas, buscando isolá-los da populaçom.

Em muitos casos, estas montagens som encaminhadas para preparar o caminho para outras formas de repressom mais amplas, como a aprovaçom de leis que facilitem ainda mais o controle social, o aumentos de corpos repressivos, construçom de mais cárceres, instalaçom de câmaras de vigilância, etc. como sucede agora no Chile, onde depois de umha montagem brutal que durou vários meses e na que se pretendeu prender a 14 companheiros por delitos como associaçom delituosa, agora se aprova a chamada lei antiprotesto ou lei Hinzpeter, que busca terminar com os protestos de rua. Nom nos surpreenderá se em um futuro próximo se tente algo similar por estas latitudes.

Outro objectivo desta campanha é socializar o medo, estendê-lo e fazê-lo florescer entre a sociedade, tentando converte-la assim em cúmplice da repressom, assumindo como próprio o medo que o sistema sente ante a mobilizaçom social e popular. Busca-se fomentar a submissom dos explorados às consignas oficiais, tentando que surjam colaboradores espontâneos ou sistemáticos com a repressom ou simplesmente que as acçons repressivas se assumam como algo comum, normalizando a repressom ante os olhos da sociedade.

Na fabricaçom destas montagens intervêm várias instituiçons, as quais estám encarregadas do controle social e a contençom do protesto social, encarregadas de evitar que a frustraçom cotidiana se converta em raiva organizada. Segundo sua funçom se podem dividir em três eixos.

1. O eixo político som todas essas organizaçons encarregadas de manter os protestos dentro de um canal que convém ao sistema: negociaçom, pactos, respeito às leis, etc. no que cabem desde ONGs, sindicatos, partidos políticos e alguns grupos de esquerda que se dedicam a levar as lutas a esses terrenos, ajudando assim a manter o estado das coisas. Outra funçom que tem este eixo é a de levantar o dedo acusador, delimitando-se e assinalando aqueles que nom participam das vias institucionais, convertendo-se assim em cúmplices inactivos da repressom.

2. O eixo midiático é formado por todos os jornalistas e meios de comunicaçom ponta de lança da propaganda de guerra institucional, aqueles que pavimentam o caminho da repressom, mesmo que depois eles mesmos se encarreguem de justificar, nom se importando em absoluto com a gravidade da mesma. Som a correia de transmissom do medo.

3. O eixo jurídico-penal se conforma das diversas entidades do sistema legal. Desde a polícia de bairro ao carcereiro, passando por magistrados e ministérios públicos.

Este triângulo formado por políticos, jornalistas e corpos repressores é o encarregado de manter a ordem, cuidar que os interesses dos poderosos nom se vejam afectados de maneira algumha por incidentes surgidos dos sectores explorados da populaçom. Som guardiáns da ordem e da lei. Eles som também umha fábrica de medo e terror, nos dosando processados e, no fundo, justificando sua existência.

Quer dizer, o medo nom só é um produto que sai desta fabrica, como também é sua matéria prima.

Pois bem, como vemos, no desenvolvimento das montagens intervêm diferentes actores, cada um desempenhando um papel muito determinado. Assim mesmo, ainda que os contextos em que se apliquem sejam diferentes, podemos observar certos objectivos muito claros e concretos. Identificar e entender isto nos pode servir para anular os primeiros momentos da montagem; saber, ou polo menos imaginar, o que se nos pode apresentar como cenário ante umha repressom nos dá melhores elementos para determinar as estratégias de resposta.

Se chegamos a identificar e conhecer os elementos, tempos e finalidades destas montagens, é possível resistir a elas de umha maneira mais efetiva. É umha oportunidade para conhecer nossas forças, as possibilidades do momento, nossos pontos fortes e os aspectos a melhorar.

Devemos responder às montagens utilizando nossa maior ferramenta: a solidariedade; é de suma importância abrigar a todos os companheiros reprimidos e/ou identificados. Nós pensamos que ante estes cenários é fundamental manter a calma. Entender que o que está passando forma parte de umha estratégia repressiva ampla e constante por parte dos grupos de poder; reforçar nossas medidas de segurança e, sobretudo, continuar com nossas tarefas organizativas e de luta.

É claro que o Governo do Distrito Federal (GDF), desde a administraçom de AMLO [Andrés Manuel López Obrador, chefe de governo até 2005], com Marcelo Ebrard como Secretário de Segurança Pública, tem construído um discurso que lhe tem permitido abrir mão de recursos repressivos que o ajudam em sua tarefa de controle social, como o famoso “Protocolo de manejo de controle de multitudes”, o qual já aplicava desde antes de se aprovar e publicar, ensaiando com pequenas manifestaçons de grupos “radicais” polo que ninguém protesta se som golpeados e encarcerados. Agora que tem um discurso legitimador e as ferramentas necessárias, nom duvidamos que começará a utilizá-los já nom só contra os grupos anarquistas, como contra todas as expressons dissidentes que saiam de seu marco de controle e mecanismos de corporativizaçom.

Sirvam, pois, estas reflexons para contribuir ao debate das estratégias antirrepressivas.

Abaixo os muros das prisons!

Liberdade a todos e todas!

Cruz Negra Anarquista México

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