14 oct. 2013

O gene da violência, mais umha vez

Assim é o título do artículo de Pablo Ortellado (professor e investigador universitário) no jornal "O Correio da Cidadania" sobre o Black Bloc, umha táctica que define como "nem violenta, nem arbitrária, nem tola" e sobre as suas origens como metodo de enfrontamento à violência do estado, "a verdadeira volência":

O 7 de setembro (1) foi um dos momentos notáveis em que o país novamente assistiu a brutais acçons repressivas da polícia cuja "contundência" seria justificada pola violência dos manifestantes, sobretudo do Black Bloc. Para quem segue achando que meninos e meninas que quebram vidreiras som "violentos" e que, por isso, precisam ser contidos também com violência (sem aspas), convido a umha reflexom histórica sobre a origem dessa táctica.

Em 1999, os movimentos sociais dos EEEUU preparavam-se para protestar contra a cimeira do Milênio da Organizaçom Mundial do Comércio (OMC), que buscava levar a desregulamentaçom econômica para outro nível, incluindo o sector de serviços e criando absurdas garantias para investidores. Duas iniciativas grandes foram feitas para protestar contra o encontro que acontecia na cidade de Seattle: umha grande manifestaçom de sindicatos, sobretudo os ligados à confederaçom AFL-CIO, e um bloqueio dos acessos ao local do encontro organizado pela rede Direct Acion Network (DAN). O bloqueio organizado pela DAN era caracterizado pola observaçom estricta da nom-violência, na tradiçom inaugurada pelo movimento dos direitos civis de Martin Luther King Jr.

Alguns ativistas acreditavam, no entanto, que essa estratégia da nom-violência tinha se tornado inefectiva e que era preciso inovar. A nom-violência de Gandi e Luther King foi caracterizada por umha desobediência aberta a leis injustas e a nom reaçom à acçom repressiva do Estado - usualmente extremamente violenta. Foi assim que os indianos enfrentaram o colonialismo inglês e os negros do sul dos EEUU enfrentaram a política segregacionista. Eles desafiaram colonialismo e segregacionismo violando aberta e publicamente as leis e dando a outra face quando eram atacados pola violência policial. Essa postura que conciliava umha causa muito justa e umha acçom de resistência passiva chocou a opiniom pública, que logo se colocou a favor dos protestos, tirando a legitimidade da opressom colonial britânica e da política de segregaçom dos estados do sul.

Mas para que essa estratégia fosse acertada era preciso que os meios de comunicaçom cobrissem a violência do Estado. Era a visom da violência do Estado sobre manifestantes passivos em defesa da justiça o que gerava os efeitos políticos buscados. Mas, desde os protestos contra a segregaçom racial, os movimentos sociais americanos nom conheciam umha campanha de maior expressom que tivesse sido bem sucedida. E o principal motivo para que isso tivesse acontecido era que a grande imprensa nom cobria a violência policial e, portanto, a resistência passiva gandiana nom tinha nengum efeito práctico. Foi esse o entendimento dos ativistas que discordaram do DAN e optaram por montar um Black Bloc, na tradiçom alemana.

No entanto, de maneira um pouco diferente do que faziam os alemáns (que se dedicavam a enfrentar a polícia e proteger as manifestaçons de agentes provocadores), os activistas americanos do Black Bloc buscariam retomar a atençom da grande imprensa por meio de umha ousada campanha de destruiçom de propriedade privada - umha acçom simbólica, orientada a grandes cadeias comerciais como McDonald's e Starbucks. Assim, conseguiriam simultaneamente resgatar a atençom dos meios de comunicaçom e demonstrar simbolicamente seu repúdio a alguns símbolos do avanço do capitalismo transnacional.

É preciso notar que essa acçom de destruiçom de propriedade também era nom-violenta, já que umha das regras que foram auto-instituídas polos manifestantes é que pessoas ou animais nom poderiam ser machucados (regra que extraíram das acçons "terroristas" do movimento ambiental radical americano) - e também que nengum estabelecimento comercial operado polos donos (isto é, nengum pequeno comércio) poderia ser atacado.

O que vimos recentemente no Brasil é um direto desenvolvimento dessa estratégia, que já dura 15 anos, e que nom está sendo colocada em práctica apenas no Brasil, mas em muitos lugares do mundo, como a Grécia e o Egito. Quando olhamos sob a ótica da sua origem histórica, a acçom dos Black Bloc parece razoavelmente bem sucedida.

Enquanto a repressom da polícia a manifestantes pacíficos segue invisível para a maior parte da grande imprensa, a destruiçom de propriedade privada, sobretudo de bancos, ganha enorme visibilidade. Adicionalmente, o feito de o Brasil ainda manter umha polícia militar que opera practicamente sem controle, e que é acusada de acçons regulares de extermínio de jovens pobres, cria umha paradoxal situaçom que tem sido bem explorada polos manifestantes. A imprensa gasta páginas e mais páginas de jornal e dezenas de minutos de jornalismo televiso para discutir a "violência" contra vidrieiras, enquanto a verdadeira violência contra a vida de nossos trabalhadores ganha mençons pontuais e breves.

Ao chamar a atençom para os bancos, para as grandes marcas e para o Estado brasileiro, o Black Bloc resgata a atençom dos meios de comunicaçom e a redireciona para o sistema econômico e político que está na gênese da verdadeira violência da nossa sociedade. É umha questom em aberto se essa mensagem está sendo adequadamente recebida polo público. Mas, seja como for, essa táctica nom é nem violenta, nem arbitrária - e, sobretudo, ela nom é tola. Nossos jovens que estám nas ruas merecem respeito e nosso apoio - e nossa indignaçom precisa estar orientada para a verdadeira violência, aquela que faz desaparecer Amarildos(2) e assassinar Ricardos(3).

Vidas devem valer mais do que vidreiras.

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(1) Dia da Independência (na jornada deste ano houvo fortes protestos, sobretudo relaçonados com os recortes em educaçom da "esquerdista" presidenta Dilma Rousseff, e forte repressom policial, além da habitual criminalizaçom nos "mass merdas")

(2) Amarildo de Souza, albanel, de 43 anos e pai de seis criaturas, foi desaparecido em 14 de julho deste ano numha favela depois de ser detido por policias militares. Agora soube-se que foi selvagemente torturado e morto ao ser asfixiado com um saco nas dependências policias (ver notícia)

(3) Ricardo Ferreira Gomes, funcionário da universidade, foi assassinado na porta da sua morada em 2 de agosto de 2013, tras umha agressom cometida por polícias militares na presença de estudantes (ver notícia)

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