19 mar. 2013

[Portugal] Morte dum rapaz em Setúbal, que ia em moto sem casco, por disparos da polícia ao nom parar num Stop


Pelo menos 30 moradores do bairro das Manteigadas - junto ao bairro da Bela Vista - cercaram na tarde do domingo 17 - e ao longo da noite - a esquadra da Polícia de Segurança Pública de Setúbal a protestar contra as autoridades devido à morte de Rúben Marques, um jovem de 18 anos, o sábado 16 à tarde.

Os moradores, na sua maioria jovens, alegam que Rúben, que ia em moto, estava a ser perseguido pola polícia quando foi atingido por disparos e caeu da moto, acabando por morrer.

A polícia de Setúbal nega esta versom, dizendo que tudo foi um "acidente de trânsito" e nega veementemente que o rapaz tenha sido atingido por balas e alega que o rapaz fora mandado parar numha operaçom STOP, por estar a circular sem casco e que ao fugir às autoridadades fora perseguido, a alta velocidade, e foi aí que caeu.

Ao longo da noite, a tensom foi medrando e grupos de jovens da zona, além de prender lume a contentores de lixo, lançaram pedras contra a polícia de intervençom, e estes responderam disparando alguns tiros para o ar para dispersar os jovens.

Ao respeito desta morte sairom na rede vários artículos de opiniom e comentários da notícia, denunciando o abuso de poder da polícia e considerando istos feitos como assassinato com dose de razismo e clasismo, este que escreve esta notícia extraida de Indymedia Portugal recomendo-vos a leitura de dous de-les que cópio e colo a continuaçom


Comentário de Isabel Faria no Indymedia Portugal:

"Um miudo de 18 anos morreu. Ia numa moto sem capacete. Estava, pois, a pôr em causa a sua segurança e, apenas, a sua, e a infringir a Lei. Não parou numa operação Stop e a Polícia iniciou uma perseguição. Não tirou a matricula. Não perseguiu, apenas. Não ultrapassou e o impediu de avançar. Não, segundo informações da própria Polícia, disparou balas para o ar, segundo dizem, de borracha, e o miúdo de 18 anos que conduzia sem capacete, pondo em causa a sua, e, apenas, a sua, segurança e não cumprindo a lei, perante as balas que o atingiram ou, apenas, assustaram, despistou-se violentamente (é esta a versão oficial, que nem quero, para já duvidar) e morreu.

Assim sendo, um miudo de 18 anos morreu por conduzir sem capacete. Mas a razão da morte, não foi conduzir sem capacete, foi não ter parado numa operação Stop. Confirma-se, pois, que, sobretudo em bairros pobres ou com condutores negros, não parar numa operação Stop pode ser condenado com a pena capital. No momento. Os pormenores de como é aplicada a pena, mudam. A pena não.

Um miudo de 18 anos que podia ser o meu filho, ou o filho de qualquer um de nós, morreu ontem e é hoje tratado por muitos como um perigoso delinquente por não ter parado numa operação Stop e por viver num bairro pobre e problemático...E, portanto, mereceu morrer. Para dar o exemplo, lê-se por aí. Para aprender não, porque tinha 18 anos, e morreu. Já não vai aprender mais nada.

Também não interessa nada pensar o que ainda falta aprender aos nossos filhos aos 18 anos...as regras que infringem, os ordens que não cumprem. Ou o que nos falta aprender a nós, adultos feitos, nem sequer vivendo em bairros "complicados", não presumíveis delinquentes, pois, que escondemos os telemóveis ou reduzimos a velocidade para o que a lei impõe, quando um carro patrulha se aproxima... Nós não nascemos nem vivemos em bairros sociais, pobres e problemáticos. Se formos apanhados, paramos e pagamos a multa. Não somos delinquentes, pois, mesmo que possamos com essas infrações pôr em causa a segurança de outros, que não, apenas, a nossa, como quando se vai sem capacete e se morre. O menino de 18 anos, que podia ser o nosso filho, não parou para não pagar a multa. Morreu, pois.

O menino de 18 anos que morreu ontem, nem deve ter nunca sido menino. Quando se nasce no bairro da Bela Vista em Setúbal, mesmo se ainda de fralda, já se é delinquente.
"

Texto assinado por f. "Cansada é pouco: Enojada"

O uso de capacete é uma obrigação imposta pelo estado aos cidadãos para sua própria segurança, como o uso de cinto de segurança. que a polícia mande parar uma pessoa de moto por não ter capacete faz por isso todo o sentido. Que a polícia, perante a fuga dessa pessoa de moto sem capacete, dispare tiros (de aviso, de intimidação, seja lá o que for que sucedeu) é, além de totalmente ilegal -- que risco de vida para os polícias ou outros apresentava aquela pessoa? -- de uma tão total e revoltante estupidez que custa a crer que haja uma estrutura hierárquica que permita que um comunicado ou uma informação oficial seja dada nesses termos.

Aliás, toda a comunicação da PSP, tal como tem sido veiculada pelos media, é um prodígio de estupidez, de contradição e mistificação (para não variar do costume). Se os tiros foram para o ar, como sustentam, por que motivo fazem questão de dizer que foram de balas de borracha -- como se, de resto, balas de borracha não matassem e ferissem e, se atingindo alguém de mota, não determinassem decerto um acidente? e se o motivo de mandar parar o rapaz era não ter capacete, por que já falam agora da 'hipótese' de a mota ser roubada (outro clássico das versões policiais: não tarda o rapaz passa a suspeito de assaltar velhinhas e de ter 'um longo cadastro')? e se o mandaram parar por ser perigoso para ele andar sem capacete, por que motivo de repente acharam que a melhor forma de lhe proteger a vida e a integridade física era persegui-lo e disparar tiros 'de intimidação'? e ainda: fariam o que fizeram se em vez de estarem na Bela Vista estivessem na Avenida de Roma ou na Lapa?

Não menos extraordinário é que, de acordo com o DN (Diário de Notícias), a PJ (Polícia Judicial) tenha sido informada pela PSP (Policia de Segurança Pública) de que 'a situação não requeria a intervenção da PJ' -- mas o que é isto? Agora uma morte em circunstâncias suspeitas não é investigada pela PJ porque a PSP, que está envolvida na morte, diz que não é preciso?? mas está mesmo, oficialmente, tudo doido?

Em março de 2010, a propósito da morte de MC Snake, escrevi este post. Fui processada pelo sindicato nacional de polícia por alegado abuso da liberdade de expressão e difamação (acho que era isso, mesmo se não cheguei a perceber que parte do post seria considerada difamatória). O MP (Ministério Público) não acompanhou a acusação, o sindicato (que tem, como todos os sindicatos, isenção de custas) pediu a abertura da instrução e a juíza de instrução mandou arquivar. o sindicato recorreu para o tribunal da relação, onde suponho o processo estará a aguardar decisão. Não estou a relatar isto por mais nenhuma razão que para reiterar tudo o que escrevi no post em causa (acho que se o sindicato se sentiu ofendido tem todo o direito de me processar, por mais que me chateie gastar dinheiro em advogado para me defender), e para acrescentar que pequei por brandura. A palavra certa não é cansada, é enojada, e furiosa, e uma boa parte da minha fúria é para a total ausência de interesse que vejo estes casos, que noutros países incendeiam as opiniões públicas, atraírem em Portugal. aparentemente, a maioria das pessoas não consegue imaginar que isto possa suceder ao seu filho, ao seu sobrinho, ao seu irmão, ao seu neto -- ou a si próprio. Aparentemente, a maior parte das pessoas acha que a lei se fez para ser cumprida por todos menos pela entidade que tem por missão vigiar o seu cumprimento. Aparentemente, a maioria das pessoas não faz a menor ideia do que é um estado de direito. ou acha que isso é um luxo que não se aplica a bairros sociais, a minorias étnicas, a pobres, a gente que não conhece ou que não ve como 'igual'.

Esta história, e a reacção a ela, diz muito sobre o país que somos e as instituições que temos. E o que diz é muito muito mau.

Notícia redactada por Edu

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