23 ene. 2014

[Ucrânia] “A classe operária, como classe, nom participa de modo algum nestes acontecimentos”

Colamos do portal anarquista do Colectivo Libertário Évora:

Anarquista ucraniano dissipa mitos sobre os protestos na Ucrânia e alerta para a influência fascista



Em Kiev, na Ucrânia, continuam os confrontos, habituais desde o final de Novembro, entre a polícia e os manifestantes. Em causa está o braço de ferro entre o Governo (que suspendeu a assinatura do Tratado de Livre Associaçom com a Uniom Europeia) e a oposiçom que procura liderar os protestos, tentando daí tirar dividendos políticos. Nos últimos meses tem sido crescente o peso do partido fascista Svoboda que integra a coligaçom oposicionista. Para os anarquistas ucranianos, apesar de criticarem a actuaçom do governo, os trabalhadores estom fora deste jogo político entre os partidários de um maior relacionamento com a Uniom Europeia e os que defendem umha maior integraçom com a economia russa. A entrevista que traduzimos e de que publicamos excertos foi dada por um companheiro anarco-sindicalista da Organizaçom Autónoma de Trabalhadores da Ucrânia (um pequeno grupo que desenvolve a sua actividade em Kiev e em Harkov, a segunda cidade mais industrializada da Ucrânia), a umha rádio norte-americana. No entanto, a presença de militantes libertários nas ruas, em protesto contra as medidas autoritárias e repressivas do governo ucraniano, tem sido também umha constante

A Radio Asheville, com base no oeste da Carolina do Norte, emitiu recentemente umha fascinante entrevista com um anarco-sindicalista chamado Denys, da Organizaçom Autónoma dos Trabalhadores da Ucrânia. Nesta entrevista Denys desmascara muitos dos mitos em torno dos protestos a favor da adesom à Uniom Europeia que se estám a verificar no país e explica o que se está a passar nos bastidores e a propaganda que tem sido feita a propósito dos protestos.

Porque é que o Acordo de Livre Associaçom com a UE (que beneficiaria, sobretudo, os ultra-ricos oligarcas da Ucrânia) está a ser deliberadamente interpretado como umha verdadeira integraçom? Os líderes ucranianos recusaram assiná-lo no último minuto. Entretanto, a Rússia está a tentar empurrar a Ucrânia para a sua uniom aduaneira, oferecendo a Kiev um acordo com a promessa de compra de milhões de euros de produtos ucranianos e um desconto de 30 por cento no Gás Natural russo.

Denys explica que, quando os protestos começaram, a classe política ucraniana foi apanhada de surpresa. Contudo, a oposiçom, umha coligaçom orientada sobretudo para a direita (sendo o partido fascista Svoboda o mais visível de todos eles) reagrupou-se rapidamente e transformou a rua na sua máquina de relaçons públicas. A oposiçom planeou manifestaçons massivas, como o líder fascista do Svoboda declarou numha entrevista já em março de 2013. Ficou evidente que os líderes da oposiçom planearam derrubar o actual governo com o apoio financeiro e político da conservadora Angela Merkel, da Alemanha, dos líderes da UE de Bruxelas e com o apoio visível dos Estados Unidos, cujo embaixador, o conservador John McCain foi a estrela convidada do Euromaidan. (…)

É difícil dizer quem está em maior desespero – se o governo ou se a oposiçom, mas esta última já anunciou que se vai centrar nas próximas eleiçons presidenciais , previstas para daqui a 18 meses, embora nom seja ainda muito claro o candidato que vai apoiar.(…)

(No entanto), a oposiçom usou os protestos de rua contra o governo para ganhar poder na Ucrânia. Os resultados têm sido muito proveitosos para o partido Svoboda. No dia 1 de janeiro, o Svoboda organizou umha marcha de mais de 15.000 nacionalistas para comemorar o aniversário do antigo colaboracionista nazi já falecido Stepan Bandera .(…)

Denys : É necessário distinguir entre os dois Euromaidan. O primeiro ocorreu a 21 de novembro, participaram pessoas de classe média, que na sua maioria queriam a assinatura do acordo com a Uniom Europeia. No entanto, hoje, dois meses depois, a maioria das pessoas que estám nas ruas estám preocupadas com questons bem mais prácticas, como a brutalidade da polícia, que foi vissível na noite de 1 de dezembro e, na generalidade, ninguém está satisfeito nem com o governo nem com o presidente. Assim, a integraçom europeia continua a ser umha questom mais vasta, mas está hoje numha espécie de segundo lugar. Quando se tratava de manifestaçons pró-governo as pessoas eram levadas pelo governo para Kiev, em autocarros, ao fim de semana. Estes protestos nom foram honestos. Muitas pessoas que trabalham para o governo, como professores, médicos, e assim por diante, foram informados pelos chefes que teriam que participar. Era obrigatório para eles. Nom diria que fosse um protesto real. Mas tomando em conta as pessoas que apoiam a uniom com a Rússia, a Bielorússia e o Casaquistám, sim, há essa opiniom e, tomando o país como um todo, está dividido mais ou menos em 50 por cento relativamente à integraçom na Uniom Europeia ou na Uniom Aduaneira (com a Rússia). O problema é que a segunda posiçom nom está muito representada nos meios de comunicaçom de massa que se inclinam no outro sentido (pró-UE). E, geralmente, essas pessoas que apoiam a uniom aduaneira nom têm o hábito de protestar. Elas vivem em cidades mais pequenas e, portanto, nom estám tam representadas nos media como quem vive na capital. Os apoiantes da Uniom Aduaneira têm também líderes políticos muito estúpidos. Por exemplo, a principal força política que organizou os protestos teve como principal ponto de propaganda anti-UE dizer que a Uniom Europeia iria trazer o casamento entre pessoas do mesmo sexo e outras coisas fora da tradiçom que nom seriam bem acolhidas pela populaçom ucraniana. Até inventaram o termo “euroSodoma”, como em Sodoma e Gomorra. A outra força política que apoia a Uniom Aduaneira é o Partido Comunista da Ucrânia, que há muitos anos nom tem nada a ver com o comunismo, e cujo programa político e agenda podem ser descritos como um partido social-conservador normal. Se comparar com Marie Le Pen, nom encontrará muitas diferenças.

Asheville Rádio FM: É, na visom desses grupos, umha espécie de regresso à era soviética e ao encontro de outros países do leste europeu?

Denys: Claro, especulam sobre isso, porque os laços entre as pessoas comuns ainda som muito fortes. Você sabe que muitas pessoas têm parentes na Rússia, para nom mencionar coisas como a cultura de massas que é comum. Muitas pessoas vêem os canais de televisom russos, e isso é muito habitual na vida de todos os dias das pessoas das regions do centro, do leste e do sul. As pessoas na regiom do centro e do sul têm muitas coisas em comum com os russos, com o seu estilo de vida, e nom sentem que essas semelhanças existam com os povos europeus. Mas, ao mesmo tempo, umha grande parte da populaçom da Ucrânia vive actualmente no exterior, na Uniom Europeia , especialmente em Espanha, Itália, Polónia, República Checa e Portugal. Som pessoas principalmente das regions ocidentais, mas nom exclusivamente.

Radio Fm Asheville : Entre os partidários versus os detractores da inclusom na UE, podo ver umha divisom segundo normas sociais, tal como mencionou, os mais liberais talvez a inclinarem-se mais para o Ocidente, com as suas leis mais progressistas e com os casamentos entre pessoas do mesmo sexo e do outro lado, à direita, os mais conservadores, os mais inclinados para os ortodoxos – ainda que seja umha igreja ortodoxa diferente da igreja ortodoxa russa – e estou seguro de que, dependendo donde está ou em que indústria trabalha, você irá ter mais negócios, em geral, ou com o Oriente ou com o Ocidente. Você pensa que as duas posiçons se destinam, basicamente, a liberalizar a economia e a enfraquecer os direitos dos trabalhadores ucranianos, ou é umha espécie de falsa escolha para os trabalhadores da Ucrânia?

Denys: Antes do mais você referiu-se ao liberalismo social prevalecente entre os ucranianos pró-UE. Na realidade nom concordo com isso. Há essa impressom porque os protestos pró-UE som dirigidos por pessoas com estudos, da classe média, que têm um tipo de agenda mais social-liberal. Mas, mesmo assim, é mais a direita cultural contra a direita cultural. Veja-se, por exemplo: regularmente as pessoas no Euromaiden rezam publicamente, todas juntas, todas juntas. Olhemos, entom, o casamento de pessoas do mesmo sexo: os que defendem a integraçom na UE nunca o aceitarom. De facto, as questões sociais relativas aos direitos dos trabalhadores nom estám, de todo, na agenda. A classe operária, como classe, nom participa de modo algum nestes acontecimentos. Os trabalhadores tomam naturalmente partido, mas nom estám organizados enquanto classe, em sindicatos, e, por isso, como tal, simplesmente nom tomam parte nestes eventos. E têm boas razons para isso, porque ambos os lados apenas falam de questons culturais, políticas, que nom têm qualquer ligaçom directa com as necessidades de um trabalhador normal. Os manifestantes que apoiam a UE têm a ideia, absolutamente falsa, da Europa como um paraíso onde tudo está bem, onde tudo está muito melhor do que na Ucrânia ou em qualquer outro lugar. É inútil falar-lhes dos protestos no seio da própria UE, dos programas de austeridade. Eles simplesmente nom ouvem e dizem: “Ah, entom para você seria juntarmo-nos à Rússia, nom é?” Portanto, esta falsa escolha é bastante limitativa, e acho que o mesmo podia ser dito sobre o lado oposto. A agenda de esquerda, a agenda dos direitos dos trabalhadores, nom está presente em qualquer destas praças onde as pessoas protestam. (…)

Radio Fm Asheville : Encontrei o site de Dimitrov Kutchinsky , esse tipo é louco. Há ali também referências ao nacional – anarquismo.

Denys:Você está familiarizado com esse conceito?

Radio Fm Asheville : Sim, existem também alguns idiotas que afirmam ser isso aqui nos Estados Unidos . Em San Francisco, New York e Chicago. Eles têm algum peso na Ucrânia?

Denys:
Sim, na verdade têm. Porque, infelizmente, esta é umha tendência muito comum – fazer umha mistura com temas de esquerda, com a adopçom dumha narrativa anticapitalista. O ser-se anarquista está na moda, é muito elegante, cool e dá-lhes algumhas vantagens imediatas, mas as pessoas misturam isso com temas nacionais, que também estám muito na moda e som muito cool para os jovens, sobretudo para os adolescentes que nom vêem qualquer problema em tentarem combinar essas coisas. E isso é especialmente engraçado aqui na Ucrânia, porque existe um grande mito à volta de Makhno. Hoje ele é parte integrante do mito nacional e é considerado um nacionalista, porque na verdade lutou contra os bolcheviques. Por isso, considera-se que ele pertence à Ucrânia, à Ucrânia independente, tem um papel nacional e assim por diante. Obviamente, isto é um total absurdo, mas essa mitologia é muito popular e contribui para a popularidade que aqui tem a síntese entre a esquerda-direita, a chamada terceira posiçom, como Terza Posizione, que é de facto a tradiçom fascista italiana.

Radio Fm Asheville : Sim, é o mesmo palavreado que eles usam nos Estados Unidos: “third positionists”. Existe também umha grande sobreposiçom entre o nacionalismo e a ecologia biocêntrica regional, de modo que parecem estar a invadir o Anarquismo Verde, tentando transformarem-se na corrente principal e antes da maior parte das pessoas se darem conta de quem eles som e o que fazem.

Denys:
Compreendo, mas aqui na Ucrânia, para além dos temas da New Age, eles têm também muito fascínio pelos próprios fascistas, como Mussolini, por exemplo. Tentam, de algumha forma, misturá-lo com o anarquismo. Para além disso, você está a par da divisom no movimento anarquista russo que aconteceu recentemente?

Radio Fm Asheville : Nom, realmente nom.

Denys:
Bem, houve umha grande divisom que se repete também na Ucrânia. É a divisom entre os anarquistas que defendem os direitos das minorias, a luta feminista, que prestam atençom às questons gerais da sociedade, aos direitos para as minorias étnicas e os macho-anarquistas que nom gostam destas “p….s feministas”. Eles dizem: “Nós somos tipos porreiros, fazemos muito desporto, somos verdadeiros anarquistas, nom queremos nada a ver com essas bichas” . Infelizmente, este macho-anarquismo também está aqui a ganhar muita popularidade nos últimos tempos. (…)

Asheville Rádio FM: Fale-nos sobre o grupo a que pertence, à sua organizaçom.

Denys:
O nosso grupo foi fundado há dois anos, e ainda nom é muito grande. Mas diria que temos tido, de facto, algum crescimento quer em termos de qualidade, quer de quantidade, porque estamos hoje implantados em dois sítios, um em Kiev e outro em Harkov, que é a segunda maior cidade industrial da Ucrânia. Temos cerca de 20-25 pessoas em Kiev e talvez 15 pessoas em Harkov. Estes nom som números astronómicos, mas som maiores do que já foram inicialmente, e acho que estamos a crescer. Nós nom nos vemos como um grupo de propaganda política, mais como umha organizaçom de classe. Guiamo-nos pelos princípios do sindicalismo revolucionário, embora o nosso grupo se esteja a tornar cada vez mais anarco-sindicalista. No início tivemos alguns trotskystas e alguns marxistas, mas agora acho que a maioria deles já se consideram anarquistas. Mas, infelizmente, ainda nom temos qualquer organizaçom nos locais de trabalho, já que de acordo com a legislaçom ucraniana, para ela existir é preciso haver pelo menos 3 pessoas em cada local de trabalho. Temos pessoas de diferentes áreas, muitas sem nenhum posto de trabalho fixo, como trabalhadores sazonais ou trabalhadores da construçom civil, etc.. Esse é o nosso maior problema e hoje funcionamos na realidade mais como um grupo de propaganda, embora queiramos ser umha verdadeira uniom de classe, como os IWW, esse é o modelo que pretendemos.

Asheville Rádio FM: Para os ouvintes que nom estom familiarizados com o anarco- sindicalismo, gostaria que nos dissesse de que se trata e como é que ele se compara e difere do sindicalismo revolucionário?

Denys:
O sindicalismo, enquanto método, assenta na negaçom de partidos e da política parlamentar como instrumentos capazes de alcançarem qualquer objectivo político. A tónica principal é colocada sobre instrumentos de acçom directa, como greves, manifestaçons, ocupaçons e assim por diante. O principal desafio do sindicalismo, de per si, é encontrar umha estratégia de ligaçom entre a luta política e económica e a luta dos sindicatos, das unions. Assim, ao contrário do trade-unionismo ou do trabalhismo como na Gram-Bretanha, os sindicalistas acreditam que os sindicatos devem ter objectivos políticos em paralelo com os objectivos económicos. Devem lutar, por exemplo, por salários mais altos, mas nom se devem esquecer que, em simultâneo, estám a lutar, eventualmente, pelo comunismo, pela queda do capitalismo. Na teoria sindicalista, chamamos a isso ginástica revolucionária .

Radio Fm Asheville : Nunca tinha ouvido essa frase antes.

Denys:
A ginástica revolucionária é a luta de todos os dias por pequenas reformas, mas que ao mesmo tempo desenvolve os músculos da classe trabalhadora. Depois dessas lutas, os trabalhadores saem delas melhor organizados e com um maior nível de consciência de classe. Durante as greves e manifestaçons, a classe trabalhadora consolida e treina-se para outras batalhas de classe e também para as batalhas políticas mais importantes e mais vitais que depois virám. O sindicalismo revolucionário pode unir praticamente qualquer anti-capitalista situado à esquerda, enquanto o anarco-sindicalismo implica que os membros do movimento partilhem umha visom anarquista. Pessoalmente, nom considero que o anarco-sindicalismo seja contraditório com qualquer outra forma de anarquismo social. O anarco-sintetismo é umha escola de pensamento que combina o anarco-comunismo como ideal, o anarco-sindicalismo como método de se chegar a esse ideal e o anarco-individualismo como a base a partir da qual avalia as suas acçons.

Versom curta e adaptada da entrevista que pode ser lida na integra (em inglês) aqui: http://revolution-news.com/ukrainian-anarchist-dispels-myths-surrounding-euromaidan-protests-warns-of-fascist-influence/

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