27 nov. 2013

[México] Resposta dum anarquista ao Subcomandante Marcos

A primeiros deste mês de novembro publicavamos acá umha notícia que falava da situaçom dxs anarquistas em México e como estám a ser criminalizados desde o esquerdismo, e ne-la fazia-se referência a umha Carta do Subcomandante Marcos, publicada na web El Libertario (en castelám), na que se desligava deste posiçonamento. Agora publicamos a resposta (também feita pública na web EL Libertario) assinada pelo "Capitán Guillermo", membro das Milícias Insurgentes – Ricardo Flores Magón:

"Que é um homem revoltado? Um homem que diz nom. Mas, se ele recusa, nom renuncia: é também um homem que diz sim, desde o seu primeiro movimento” Albert Camus, O Homem Revoltado (1951)

Subcomandante Insurgente Marcos
Exército Zapatista de Libertaçom Nacional
Chiapas, México


Desculpará que lhe faga chegar a presente carta por meios indireitos, já que até este momento careço (e parece-me que V. também) de um apartado postal ou endereço electrónico permanente. Esclareço que subscrevo esta carta a título de solitário-solidário, à margem das responsabilidades que tenho como membro das Milícias Insurgentes – Ricardo Flores Magón.

Desculpará também que comece dedicando-lhe umha citaçom tirada da carta que Pierre Joseph Proudhon dirigiu a Karl Marx: “nom lhe prometo escrever muito nem com frequência; ocupaçons de toda a espécie, em conjunto com umha preguiça natural, nom me permitem esses esforços epistolares” (1). Escrevo-lhe porque me senti visado no seu recente comunicado em que se dirige aos que militamos e nos reivindicamos como anarquistas, e ainda que nom tenha nengum interesse em responder “às críticas e às acusaçons nos meios de comunicaçom social de pago” (2), gostaria de atrair a sua atençom para lhe dar conta de algumhas das minhas inquietaçons.

Emma Goldman referia-se ao anarquismo como a única filosofia que devolve à pessoa a consciência de si mesma, desafiando-a a pensar, a investigar, a analisar cada proposta; talvez por isso Goldman afirmava também que o anarquismo deve necessariamente esbarrar com a ignorância e o repúdio envenenado do mundo que pretende reconstruir (3); de maneira que nom é de estranhar o desprezo, a vontade de escarnecer e o bombardeamento de vilipêndios contra nós, anarquistas. Em paralelo, Goldman clarifica que a organizaçom anarquista, longe de representar o caos e a violência, apresenta-se como o resultado natural da fusom dos interesses comuns, produzidos mediante a adesom voluntária, como umha condiçom fundamental para cimentar a vida social (4).

Por outro lado, Piotr Kropotkin declarou, em síntese, que os anarquistas recusamo-nos a tratar os outros como nom gostaríamos de ser tratados por eles (5); sobre isto nom é necessário dar mais explicaçons, umha vez que, como bem o dizia Kropotkin: “é fácil ser breve ao dirigirmo-nos a vos, jovens do povo; a própria força das coisas impele-vos a serem anarquistas” (6).

Julgo, Subcomandante Marcos, que V. conhece a complexidade inerente ao fomento da participaçom política a partir dumha perspectiva acrata, enquanto se organiza a sua defesa frente ao embate das armas. V. sabe que essa complexidade nom implica necessariamente umha contradiçom inultrapassável, já que a própria ética anarquista é capaz de resolver o paradoxo. V. faz parte de um exército de mulheres e homens livres que conseguiram alcançar as suas aspiraçons enquanto povos índios, sem abandonar umha disciplina que permite cumprir objetivos militares específicos. V. também sabe da enorme dificuldade que implica transmitir a outros estas experiências; segundo tenho percebido, é nisso que andam agora os zapatistas, a gerarem espaços para a troca destes conhecimentos com a sociedade civil.

Parabéns! Sobre algumhas destas questons reflectia Plotino C. Rhodakanaty quando se questionava sobre qual é o objetivo mais elevado e racional a que se pode consagrar a inteligência humana, respondendo que este objetivo deve centrar-se na realizaçom da associaçom universal, de indivíduos e de povos, para o cumprimento dos destinos terrestres da humanidade (7). Considero muito valioso o esforço zapatista por sintetizar as suas próprias reflexons num processo formativo, aberto e plural.

De qualquer modo, a motivaçom para lhe escrever nom é para reivindicar qualquer posicionamentos, o meu propósito tem a ver com umha franca provocaçom. Nestes tempos críticos em que estamos a viver, pemito-me perguntar-lhe se é necessário aprofundar as diferenças que nos dividem em vez de procurar saber se os pontos em comum que nos identificam som suficientemente convincentes para nos continuarem aproximar.

Dito de outra forma, apesar das traiçons das “esquerdas” partidárias, do oportunismo e do protagonismo de supostos líderes sociais e do embate implacável do inimigo, pergunto-lhe se V. considera actuais os princípios que Mikail Bakunin defendia sobre a autodeterminaçom, segundo os quais cada um é para todos, como todos som para cada um (8). Porque sendo assim ficarei muito agradecido se me descrever os mecanismos concretos que V. propom para alcançar a liberdade de todos, sem que outros se sintam ameaçados na sua liberdade, no meio do conflito armado que se generaliza por todo o território nacional.

Confesso-lhe que me sinto convocado quando V. faz o convite para aprender na escola zapatista, tanto como me sinto motivado para levar umha faixa tricolor, a apagar a luz aos sábados ou a assistir às acçons de resistência civil que milhares de cidadáns impulsionam através do Movimento de Regeneraçom Nacional (Morena) para repudiarem as reformas do mau governo. Do mesmo modo que considero pertinente o apelo de alguns hierarcas da igreja católica, intelectuais e políticos para integrar a Unidade Patriótica pelo Resgate da Naçom, ou como vejo urgente responder às convocatórias dos professores democratas para levar a cabo acçons contundentes de recusa da reforma educativa e para dissuadir a repressom.

Produdhon assinalava que na imaginaçom do povo, a política, do mesmo modo que a moral, é umha mitologia e, como tal, pressupom ídolos. Também advertia que aqueles que questionem ou contradigam tais ídolos, mas que sobretudo escapem ao seu poder, serám tratados de sacrílegos (9). Gostaria de lhe perguntar, com autêntico interesse, onde é que me poderei informar acerca do Programa Nacional de Luta, que terá resultado da Outra Campanha, que V. anunciou em 2006, apresentando-a como alternativa às campanhas daqueles célebres ídolos.
Pergunto-lhe tudo isto por me encontrar submerso num profundo pesar que vem do sangue derramado por centenas de milhar de compatriotas assassinados. Poi sso, transmito-lhe também a minha expectativa de que V. possa divulgar o apelo do Exército Popular Revolucionário (EPR) para erradicar de forma total as causas que permitem a desapariçom forçada de pessoas no México.

Retomo o que disse Errico Malatesta relativamente à necessidade de continuar a lutar pela anarquia e pelo socialismo, porque a anarquia e o socialismo devem ter uma expressom imediata; a minha experiência pessoal em múltiplas derrotas dá conta da invencibilidade de tais argumentos: “se hoje cairmos sem baixarmos a nossa bandeira, podemos estar seguros da vitória de amanhã”; ainda que para viver e conseguir essa vitória nom seja preciso renunciar às mesmíssimas razons que nos dam vida e distorcer o seu carácter grandioso (10).
Em circunstâncias nom muito distantes das que hoje sofremos no México, os amigos de Durruti, durante a guerra civil espanhola, apelavam à “construçom de umha Junta Revolucionária” (11). Compreendo as enormes dificuldades que actualmente se colocam para consolidar espaços onde possamos confluir os distantes grupos e indivíduos que nos opomos ao despojo e ao saque nos nossos territórios, e é por isso que, por fim, lhe quero perguntar de que maneira V. considera que podemos colaborar para facilitar o encontro, a discussom e a coordenaçom táctica entre os movimentos sociais, sindicatos, organizaçons (civis e armadas), colectivos e individualidades que procuramos contribuir à autodefesa da nossa Soberania.

A história ainda nom começou, achamo-nos ainda no último período da pré-história. Tal como Bartolomeo Vanzeti estou convencido de que o progresso e a mudança serám determinados pela inteligência e pela compreensom mútua. Se nom nos aproximarmos desse ideal nom teremos obtido nada de efectivo (12).

Subcomandante Marcos nom tenho que insistir no que já está dito, pela minha parte continuarei a esforçar-me para que todos nos entendam, talvez assim, como sugeria Malatesta, encontremos menos dificuldades e triunfemos como anarquistas, pela anarquia (13). Despeço citando a Ricardo Flores Magón, esperando que “cada um se esforce para dar a sua opiniom sobre o que é preciso fazer para alcançar a realizaçom das nossas aspiraçons, que nom som outras do que a liberdade de todos fundada na liberdade de cada um; o bem estar de todos fundado no bem estar de cada um” (14)

Espero a sua resposta

Saúde e anarquia, companheiro!

“A palavra como meio para unificar tendências, a acçom como forma de mudar e estabelecer a vida”
“Instruí o cérebro para tornar efectivo o golpe do braço, armai o braço para proteger contra as armas as criaçons do cérebro”


”Capitán Guillermo”
Milicias Insurgentes – Ricardo Flores Magón (MI-RFM)
Poyauhtlan, Anáhuac.


PS: Se o texto nom couber na página tenha V. a amabilidade de tornar mais pequena a letra até que caiba, obrigado.”

Referências:
[1]Carta de Pierre Joseph Proudhon a Karl Marx, 17 de maio de 1846.
[2]Subcomandante Marcos, Malas y no tan malas noticias, novembro de 2013.
[3]Emma Goldman, Anarquismo: o que realmente sinifica, 1910.
[4]Emma Goldman, No que eu creio, 1908.
[5]Piotr Kropotkin, A moral anarquista, Cap. VI, 1897.
[6]Piotr Kropotkin, Aos moços, Cap. III, 1880.
[7]Plotino C. Rhodakanaty, A cartilha socialista-republicana, Leçom I. Do problema social, 1883.
[8]Mijaíl Bakunin, Catecismo Revolucionario, Apartado II, 1866.
[9]Pierre-Joseph Proudhon, O Princípio Federativo, Federalismo Político: Eficacia da garantia federal, 1863.
[10]Errico Malatesta, A anarquia, 1891.
[11]Os Amigos de Durruti, Cara umha nova revoluçom, 1938.
[12]Bartolomeo Vanzetti, Historia da Vida dum Proletário, 1921.
[13]Errico Malatesta, Sobre a responsabilidade colectiva, 1930.
[14]Ricardo Flores Magón, Os jefes, publicado no jornal Regeneración do dia 15 de junho de 1912.

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Mais informaçom:

Ligaçom a umha entrevista ás Milícias Insurgentes – Ricardo Flores Magón

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