21 oct. 2013

[Brasil]: O que matou Samuel Eggers?.- Reflexonões sobre o assassinato de um anarquista

Reproduzimos informacçom recolhida de ContraInfo

No dia 13 de setembro de 2013, aos 24 anos, Samuel Eggers foi assassinado na cidade de Caxias do Sul. Desde entom os media e a polícia vem inventando histórias fantasiosas sobre sua morte, buscando enquadrá-la em um latrocínio qualquer com mentiras. Muitas som as evidencias de que som histórias falsas. Tudo nos leva a crer que Samuel morreu pelas mans da brigada militar do estado do Rio Grande do Sul, ou por algum assassino vinculado à elite local, simpatizante de ideias fascistas, protegido e salvaguardado por esta instituiçom.

Tudo leva a crer que Samuel morreu por se declarar abertamente anarquista, mesmo em um ambiente acadêmico, durante um congresso científico de psicologia. Envolvido no movimento estudantil desde sua graduaçom na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Samuel foi pouco a pouco se identificando com causas ambientais e sociais, tendo cada vez mais como norte os ideais de liberdade, mutualidade, igualdade e autonomia próprios da filosofia libertária.

Há cinco meses atrás, mais de trinta manifestantes que protegiam centenas de árvores foram violentamente abordados no meio da noite pela tropa de choque, sequestrados e humilhados, com autorizaçom do governador e do prefeito, para que arrancassem as árvores com enormes retroescavadeiras. Samuel estava entre estas pessoas que protegiam as árvores, este é seu “antecedente” para essa mídia porca e suas mentiras. Ele tinha como costume compartilhar com amigos e leitores, suas várias reflexons e leituras através de vários blogs, entre eles, o Tempo de Rebeldia. Foi por meio deste blog que denunciou os abusos de autoridade e a reconheceu a verdadeira funçom da violência policial.

“É possível que alguém que tenha tomado um “atraque” da polícia militar, daqueles que apontam umha espingarda calibre 12 na sua cara, e ainda acredite que tal acto foi fruito do despreparo de um policial individual. Que foi um erro num sistema que, de maneira geral, funciona bem. Mas, quando se tem o privilégio de ser atacado por umha operaçom deste porte, passa-se a ver a polícia com outros olhos: como um sistema cruel que corrompe boas pessoas. Em última análise, a funçom da polícia nom é manter a populaçom segura, mas mantê-la com medo e obediente. Por isso nós, baderneiros acusados de desacato à autoridade, fomos tam humilhados – em umha sociedade baseada em obediência e silêncio, nom existe crime maior do que falar a própria opiniom e defendê-la de forma minimamente efetiva.” (Notas sobre o Terror do Estado (parte 2))

Com a repressom vivenciada em decorrência do corte das árvores, e mais tarde, diante da reaçom da polícia frente às manifestaçons de junho em Porto Alegre, a compreensom de Samuel sobre o estado em umha sociedade autoritária, bem como o funcionamento do aparato repressor se consolidou.

“Nom, nom é por acaso, equívoco ou erro táctico: essa é, e sempre foi, a estratégia da Brigada Militar. O objectivo dessa corporaçom nom é proteger a populaçom, mas mantê-la assustada e dócil, com os indivíduos isolados entre si e fáceis de capturar quando se tornam ameaçadores demais. A polícia militar nom é a guardiám do nosso sono tranquilo, mas o exército que ocupa nossas cidades, e patrulha nossas ruas em busca de rebeldes. Seus soldados som doutrinados a acreditar que o que fazem é pelo bem de todos, para livrar nossa sociedade desses vagabundos que ficam fumando crack por aí, roubando quem trabalha. Aqueles policiais que desceram o cacete, que jogaram bombas e prenderam inocentes provavelmente acreditam, do fundo da sua alma, que o que estavam fazendo ali era o melhor – a coisa certa. Na massa que se movia entre cartazes, bandeiras e gritos, os homens e mulheres de farda nom viam nada além de vagabundos que mereciam apanhar por nom se comportarem direito. Por isso foram tam eficientes em seu trabalho, e tam determinados em varrer o centro de Porto Alegre daquela corja.” (Quando Porto Alegre anoiteceu laranja).

Podemos nom saber quem exatamente matou Samuel, mas sabemos o que matou. Foi morto pelo feito de ter ideias, ideais e práticas libertárias de contestaçom. Samuel, que abertamente se autodeclarava anarquista, morreu graças à irresponsável campanha midiática antianarquista do Grupo RBS através de seu jornal, a Zero Hora, que a todo custo buscou criar umha imagem distorcida do anarquismo e dos anarquistas. Também sua memória foi víctima desta mídia. Despois de seu cruel assassinato, ele que era umha das pessoas mais tranquilas segundo quem o conhecia, é descrito por reportagens como alguém “violento” por practicar kung-fu, um “portador de antecedentes criminais”. Para saber mais sobre seu crime, bastam suas palavras.

“Entrei para o grupo de pessoas que foram presas porque ousaram desafiar a tirania e combater a injustiça. Finalmente, sinto-me um igual, nom apenas diante de homens e mulheres como Gandhi, Emma Goldman e Thoreau, mas também daqueles camaradas que há muito tempo gritavam para que eu me somasse à luta. Se queriam me assustar com ameaças, e fazer com que eu me recolhesse para dentro do meu mundo, fracassaram, pois hoje descobri que nom quero viver numha “democracia” em que eu tenha que me calar e seguir as ordens dos meus superiores. Jurei que farei tudo que estiver ao meu alcance para tornar o mundo um lugar onde eu quero que meus filhos cresçam. Guardarei um lugar aqui pra ti, no dia em que perceberes o mesmo, e seguirei lutando enquanto você nom acorda.” (Notas sobre o Terror do Estado (Parte 1)).

O que matou Samuel, alguns meses depois, foi seguir firme com esta intençom: desafiar a tirania e combater a injustiça. Está cada vez mais claro que este tipo de intençom é considerada inaceitável para sádicos e sociopatas, para os adoradores da ordem que escondem suas perversons atrás de distintivos, verdades rasas e propaganda institucional.

Mataram-no e buscaram esconder esta morte nos índices de latrocínio aceitaveis, na indiferença das estatísticas que ocultam os crimes e o terrorismo dos criminosos que se escondem atrás do poder. Para iludir os vivos criaram umha história tam incoerente que constrange qualquer pessoa minimamente antenada. As incoerências nas informaçons contidas reportagens sobre a investigaçom da morte de Samuel som evidentes. Os acontecimentos nom batem, um ladrom que com umha arma no carro sae para assaltar de mam limpa, umha suposta reaçom violenta de Samuel nom coincide com sua personalidade, um latrocínio em que nada é levado. Dois jovens som apontados como suspeitos. Teriam eles recebido para matá-lo? Ou estariam sendo ameaçados empurrados de forma a assumir um crime que nom cometeram? Policiais civis e militares colaboram para esta farsa, e a mídia se esforça para torná-la lícita.

O mal que abateu Samuel poderia ter se lançado contra muitas outras pessoas, todxs aquelxs que defendem e se identificam publicamente com os ideais libertários. O que matou Samuel poderia nos ter matado a qualquer um. Entre nós paira umha certa ingenuidade, a quem prefira acreditar que nom se morre por ser anarquista, a quem prefira acreditar em “liberdade de expressom”, “democracia representativa”, “estado de direito” e em outros contos de fada.
Nos dias de hoje, como muitas vezes antes, pessoas som mortas por se colocarem contra a tirania, jovens som mortos por abraçarem estes ideais. O mal que matou Samuel, é o mesmo que matou tantos outros antes dele. Este mal fardado e engravatado, está no autoritarismo e na violência institucionalizada, na ignorância premiada, no exército de sádicos recrutados e amestrados para “proteger e servir” os interesses dos parasitas sociais a que chamamos de “elites”, como se fossem seus.

E se nos matam nas ruas o que devemos fazer? Devemos permanecer pacíficos e deixar que nos martirizem? Nom é a autodefesa um princípio anarquista? Devemos nos esconder da tirania dos cleptocratas, esperando que por qualquer descuido nos encontrem, que se abatam sobre nós e sobre as pessoas que amamos? Enquanto isso seguem aumentando seu exército de sádicos, estám pelas ruas com armas em punhos, apoiados pelos pacifistas espectadores, caguetas e infiltrados infestam todos os atos públicos e manifestaçons organizadas, generais de dez estrelas fantasiam conspiraçons.

Como escreveu o poeta Maiakóvski:

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam umha flor
do nosso jardim.
E nom dizemos nada.
Na segunda noite, já nom se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cam,
e nom dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já nom podemos dizer nada.

Antianarquismo é o nome deste mal que precisa ser a todo custo combatido. O que aconteceu com Samuel Eggers é algo a ser contado, recontado e conhecido. É hora de gritar, é hora de lutar, é hora de nom nos deixarmos tomar pelo medo. Sempre que um dos nossos é morto lembrem-se das palavras de Émile Henry em seu julgamento, aos 22 anos em 1894, rotulado de terrorista e guilhotinado por lutar contra a tirania, pelo estado frances: “Enforcados em Chicago, decapitados na Alemanha, estrangulados em Xerez, fuzilados em Barcelona, guilhotinados em Montbrison e em Paris, nossos mortos som muitos; mas vocês nom foram capazes de destruir a Anarquia. Suas raízes som profundas; brotam do íntimo de umha sociedade podre que está caindo aos pedaços; esta é umha oposiçom violenta contra a ordem estabelecida; e umha defensa das aspiraçons por igualdade e liberdade daqueles que se ergueram contra o autoritarismo vigente. Ela está em todos os lugares. Isso é que a faz indomável, e por fim ela irá derrotá-los e assassiná-los.”

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