21 ago. 2013

[Brasil] Artículo sobre o Black Bloc: “Fazemos o que xs outrxs nom têm coragem de fazer”

Colamos à ìntegra este artículo assinado por Paulo Cezar Monteiro na web da revista brasileira Forum na que descreve o que vem a ser o Black Bloc a níveis internacionais e a sua presência no Brasil:

Elxs afirmam nom temer o confronto com a polícia e defendem a destruiçom de “alvos capitalistas”. Conheça a história e a forma de luta que se popularizou com o movimento antiglobalizaçom e ganha destaque no Brasil.

“Xs ativistas Black Bloc nom som manifestantes, elxs nom estám lá para protestar. Elxs estám lá para promover umha intervençom direta contra os mecanismos de opressom, suas açons som concebidas para causar danos às instituiçons opressivas.” É dessa forma que a estratégia de açom do grupo que vem ganhando notoriedade devido às manifestaçons no País é definida por um vídeo que explica parte das motivaçons e forma de pensar dos seus adeptos.

A açom, ou estratégia de luta, pode ser reconhecida em grupos de pessoas vestidas de preto, com máscaras ou faixas cobrindo os rostos. Durante os protestos, elxs andam sempre juntxs e, usualmente, atacam de maneira agressiva bancos, grandes corporaçons ou qualquer outro símbolo das instituiçons “capitalistas e opressoras”, além de, caso julguem necessário, resistirem ou contra-atacarem intervençons policiais.

Devido ao atual ciclo de protestos de rua, o Black Bloc entrou no centro do debate político nacional. Parte das análises e opinions classifica as suas açons como “vandalismo” ou “violência gratuita”, e também som recorrentes as críticas ao anonimato produzido pelas máscaras ou panos cobrindo a face dxs adeptxs. Mas o Black Bloc nom é umha organizaçom ou entidade. Leo Vinicius, autor do livro Urgência das ruas – Black Bloc, Reclaim the Streets e os Dias de Açom Global, da Conrad, (sob o pseudônimo Ned Ludd), a define o como umha forma de agir, orientada por procedimentos e táticas, que podem ser usados para defesa ou ataque em uma manifestaçom pública.

Zuleide Silva (nome fictício), anarquista e adepta do Black Bloc no Ceará, aponta que elxs têm como alvo as “instituiçons corporativas” e tentam defender xs manifestantes fora do alcance das açons repressoras da polícia. “Fazemos o que xs manifestantes nom têm coragem de fazer. Botamos nossa cara a tapa por todo mundo”, afirma.

O jornalista e estudioso de movimentos anarquistas, Jairo Costa, no artigo “A tática Black Bloc”, publicado na Revista Mortal, lembra que o Black Bloc surgiu na Alemanha, na década de 1980, como umha forma utilizada por autonomistas e anarquistas para defenderem os squats (okupas) e as universidades de açons da polícia e ataques de grupos nazistas e fascistas. “O Black Bloc foi resultado da busca emergencial por novas táticas de combate urbano contra as forças policiais e grupos nazifascistas. Diferentemente do que muitos pensam, o Black Bloc nom é um tipo de organizaçom anarquista, ONG libertária ou coisa parecida, é uma açom de guerrilha urbana”, contextualiza Costa.

De acordo com um dos “documentos informativos”, alguns dos elementos que xs caracterizam som a horizontalidade interna, a ausência de lideranças, a autonomia para decidir onde e como agir, além da solidariedade entre xs integrantes. Atualmente, há registros, por exemplo, de forças de açom Black Bloc nas recentes manifestaçons e levantes populares no Egito.

Black Bloc no Brasil
Para Leo Vinicius, é um “pouco surpreendente” que essa estratégia de manifestaçom urbana, bastante difundida ao redor do mundo, tenha demorado a chegar por aqui. “Essa forma de agir em protestos e manifestaçons ganhou muito destaque dentro dos movimentos antiglobalizaçom, na virada da década de 1990 para 2000. Nom é uma forma de açom política realmente nova”. No Brasil, existem páginas do movimento de quase todas as capitais e grandes cidades, a maior parte delas criadas durante o período de proliferaçom dos protestos. A maior é a Black Bloc Brasil, com quase 35 mil seguidores, seguida pela Black Bloc–RJ, com quase 20 mil membros.

A respeito da relaçom com o anarquismo, Vinicius faz uma ressalva. É preciso deixar claro que a noçom de que “toda açom Black Bloc é feita por anarquistas e que todos anarquistas fazem Black Bloc” é falsa. “A história do Black Bloc tem uma ligaçom com o anarquismo, mas outras correntes como os autonomistas, comunistas e mesmo independentes também participavam. Nunca foi algo exclusivo do anarquismo. Na prática, o Black Bloc, por se tratar de uma estratégia de operaçom, pode ser utilizado até por movimentos da direita”, explica o escritor.

Para alguns ativistas, o processo de aceitaçom das manifestaçons de rua, feito pela grande mídia e por parte do público, de certa forma impôs que, para serem considerados legítimos, os protestos deveriam seguir um padrom: pacífico, organizado, com cartazes e faixas bem feitas e em perfeito acordo com as leis. Vinicius demonstra certa preocupaçom com a possibilidade do fortalecimento da ideia de que essa forma “pacífica” seja vista como o único meio possível ou legítimo de protestar. Ele afirma que nom entende como violenta a açom Black Bloc de quebrar um escaparate ou se defender de umha açom policial excessiva. “A violência é um conceito bastante subjetivo. Por isso, nom dá pra taxar qualquer ato como violento, é preciso contextualizá-lo, entender as motivaçons por trás de cada gesto”, avalia.

Para ele, a eficácia de umha manifestaçom está em saber articular bem formas de açom “pacíficas” e “nom pacíficas”. Foi esse equilíbrio, analisa, que fez com que o Movimento Passe Livre – Som Paulo (MPL-SP) paralisasse o aumento da tarifa na capital paulista. “Só com faixas e cartazes a tarifa nom teria caído”, atesta. “Quem tem o poder político nas mans só cede a umha reivindicaçom pelo medo, por sentir que as coisas podem sair da rotina, de que ele pode perder o controle do Estado”, sentencia.
Por outro lado, Vinicius alerta que é preciso perceber os limites para evitar que as açons mais “radicais” façam com que o movimento seja criminalizado ou se isole da sociedade e, com isso, perda o potencial de realizar qualquer mudança. Em sua obra, faz a seguinte definiçom daqueles que adotam a estratégia Black Bloc: “Elxs praticam umha desobediência civil ativa e açom direta, afastando assim a política do teatro virtual perfeitamente doméstico, dentro do qual [a manifestaçom política tradicional] permanece encerrada. Xs BB nom se contentam com simples desfiles contestatórios, certamente importantes pela sua carga simbólica, mas incapazes de verdadeiramente sacudir a ordem das coisas”, aponta.

Outra crítica recorrente é o fato de os BB usarem máscaras ou panos para cobrirem os rostos. Xs adeptxs da açom explicam que as máscaras som um meio de proteger suas identidades para “evitar a perseguiçom policial” e outras formas de criminalizaçom, como também criar um “sentimento de unidade” e impedir o surgimento dx “líder carismáticx”.

Luta antiglobalizaçom

Com o passar do tempo, segundo Jairo Costa, as táticas Black Bloc passaram a ser reconhecidas como um meio de expressar a ira anticapitalista. Ele explica que geralmente as açons som planejadas para acontecer durante grandes manifestaçons de movimentos de esquerda.

O estudioso destaca como um dos momentos mais significativos da história Black Bloc a chamada “Batalha de Seattle”, em 1999, contra umha rodada de negociaçons da Organizaçom Mundial do Comércio (OMC). Em 30 de novembro daquele ano, após umha tarde de confrontos com as forças policiais, umha frente móvel de black blockers conseguiu quebrar o isolamento criado entre xs manifestantes e o centro comercial da cidade. Após vencer o cerco policial, xs manifestantes promoveram a destruiçom de várias propriedades, limusines e carros policiais, e fizeram várias pintadas com a mensagem “Zona Autônoma Temporária”. Estimativas apontam prejuízos de 10 milhons de dólares, além de centenas de feridxs e 68 pessoas presas.

Para Costa, um dos episódios mais impactantes – e duros – da história Black Bloc foi o assassinato de Carlo Giuliani, jovem anarquista de 23 anos, durante a realizaçom simultânea do Fórum Social de Gênova e a reuniom do G8 (Grupo dos oito países mais ricos), na Itália, em julho de 2001. Ele lembra que, após vários confrontos violentos – alguns deles vencidos pelxs manifestantes, que chegaram a provocar a fuga dos policiais, que deixaram carros blindados para trás –, ocorreu o episódio que levou à morte de Giuliani: “Ele partiu para cima de um carro de polícia tentando atirar nele um extintor de incêndio. Muitos fotógrafos estavam por lá e seus registros falam por si. Ao se aproximar do carro, Giuliani é atingido por dois tiros, um na cabeça. E, numha cena macabra, o carro da polícia dá marcha atrás e atropela-o várias vezes”, narra. Os assassinos de Carlo Giuliani nom foram condenados. Dois anos após o fato, a Justiça italiana considerou que a açom policial se deu como “reaçom legítima” ao comportamento do militante.

Alvos capitalistas

Entre as formas de açom direta do Black Bloc destacam-se os ataques aos chamados “alvos simbólicos do capital”, que incluem joalharias, cafeterias norte-americanas ou ainda a depredaçom de instituiçons oficiais e empresas multinacionais. Costa explica que essas açons “nom têm como objetivo atingir pessoas, mas bens de capital”.
Zuleide justifica a destruiçom praticada contra multinacionais ou outros símbolos capitalistas, porque elas seriam mecanismo de “explotaçom e exclusom das pessoas”. “Queremos que esses meios que oprimem e desrespeitam um ser humano se explodam, vaiam embora, morram. Trabalhar dez horas por dia para nom ganhar nada, isso é o que nos enfurece. Por isso, nossas açons diretas a eles, porque queremos causar prejuízos, para que percebam que há pessoas que rejeitam aquilo e que lutam pela populaçom”, explica.

Ela reconhece que essas açons diretas podem deixá-lxs “mal vistxs” na sociedade, já que há pessoas que pensam: “Vaia, nom vou poder mais comer no ***** porque destruíram tudo”. Porém, Zuleide afirma que x trabalhadorx, explotadx por essas corporaçons, “adoraria fazer o que nós fazemos”, mas, por ter família para sustentar e contas a pagar, nom faz. “Esse é mais um dos motivos que nos fazem do jeito que somos”, pontua.
Vinicius explica que, nas “açons diretas”, xs black blockers atacam bens particulares por considerarem que “a propriedade privada – principalmente a propriedade privada corporativa – é em si própria muito mais violenta do que qualquer açom que possa ser tomada contra ela”. Quebrar escaparates de comércios, por exemplo, teria como funçom destruir “feitiços” criados pela ideologia capitalista. Esses “feitiços” seriam meios de “embalar o esquecimento” de todas as violências cometidas “em nome do direito de propriedade privada” e de “todo o potencial de umha sociedade sem ela”.

Sem violência?

Em praticamente todas as manifestaçons, independentemente das causas e dxs organizadorxs, tornou-se comum o grito: “Sem violência! Sem violência!”, que tinha como destinatários os policiais que, teoricamente, entenderiam o caráter “pacifista” do ato. Também seria uma tentativa de coibir a açom de “vândalxs” ou “baderneirxs”, que perceberiam nom contar com o apoio do restante da massa.

Zuleide reconhece que, inicialmente, a açom Black Bloc era alvo desses gritos, mas, segundo ela, quando as pessoas entendem a forma como elxs atuam, isso muda. “Xs manifestantes perceberam que o Estado nom iria nos deixar falar, nos deixar reivindicar algo, e começaram a nos reprimir. Quando há confronto [com a polícia], nós xs ajudamos retardando a movimentaçom policial ou tirando elxs de situaçons que ofereçam perigo, e alguns perceberam isso”, afirma.

Apesar de os confrontos com policiais nom serem umha novidade durante as suas açons, xs adeptxs afirmam nom ter como objetivo atacar policiais. Contudo, outro documento intitulado “Manifesto Black Bloc” deixa claro que, caso a polícia assuma um caráter “opressor ou repressor”, ela se torna, automaticamente, umha “inimiga”.

No “Manual de Açom Direta – Black Bloc”, também disponível na internet (acá), a desobediência civil é definida como “a nom aceitaçom” de umha regra, lei ou decisom imposta, “que nom faça sentido e para nom se curvar a quem a impom. É este o princípio da desobediência civil, violenta ou nom”. Entre as possibilidades de desobediência civil som citadas, por exemplo, a nom aceitaçom da proibiçom da polícia que a manifestaçom siga por determinado caminho, a resistência à captura de algum(ha) manifestante ou, ainda, a tentativa de resgatar alguém detidx pelos policiais.
Também som ensinadas táticas para resistir a gás lacrimogêneo, sprays de pimenta e outras formas de açom policial, além de dicas de primeiros socorros e direitos legais dxs manifestantes. De acordo com o documento, as orientaçons desse manual tratam apenas da desobediência civil “nom violenta”.

Outra orientaçom é que seja definido, antes da manifestaçom, se a desobediência civil será “violenta” ou “nom violenta”. Caso se opte pela açom ‘nom violenta’, essa decisom deve ser respeitada por todxs, visto que nom cumprir o combinado pode pôr “em risco” outrxs companheirxs, além de ser um sinal de “desrespeito”.

Contudo, o mesmo manual deixa claro que o que “eles fazem conosco” todos os dias é umha violência, sendo assim, “a desobediência violenta é umha reaçom a isso e, portanto, nom é gratuita, como eles tentam fazer parecer”.

Uma breve história

1980: O termo Black Bloc (Schwarzer Block) é usado pela primeira vez pela polícia alemám, como forma de identificar grupos de esquerda na época denominados “autônomos, ou autonomistas”, que lutavam contra a repressom policial aos squats (okupas).

1986: Fundada, em Hamburgo (Alemanha), a liga autonomista Black Bloc 1500, para defender o Hafenstrasse Squat.

1987: Anarquistas vestidxs com roupas pretas protestam em Berlim Ocidental, por ocasiom da presença de Ronald Reagan, entom presidente dos EUA, na cidade.

1988: Em Berlim Ocidental, o Black Bloc confronta-se com a polícia durante uma manifestaçom contra a reuniom do Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

1992: Em San Francisco (EUA), na ocasiom do 500º aniversário da descoberta da América por Cristóvolo Colombo, o Black Bloc manifesta-se contra o genocídio de povos nativos das Américas.

1999: Seattle contra a Organizaçom Mundial do Comércio (OMC). Estima-se em 500 o número de integrantes do Black Bloc que destruíram o centro econômico da cidade.

2000: Em Washington, durante reuniom do FMI e Banco Mundial, cerca de mil black blockers anticapitalistas saíram às ruas e enfrentaram a polícia.

2000: Em Praga (República Tcheca), forma-se um dos maiores Black Blocs que se tem notícia, durante a reuniom do FMI. Cerca de 3 mil anarquistas lutam contra a polícia tcheca.

2001: Quebec (Canadá). Membros do Black Bloc som acusadxs de agredir um policia durante umha marcha pela paz nas ruas de Quebec. Após esse evento, a populaçom local e várixs manifestantes de esquerda distanciaram-se da tática Black Bloc e de seus métodos extremos.

2001: A cidade de Gênova (Itália), ao mesmo tempo, recebeu a cúpula do G8 e realizou o Fórum Social de Gênova, com um grande número de Black blockers, além de aproximadamente de 200 mil ativistas. A açom ficou marcada pela violenta morte do jovem Carlo Giuliani, de 23 anos.

2007: Em Heiligendamm (Alemanha), reuniom do G8 foi alvo de uma açom com a participaçom de cerca de 5 mil blackblockers.

2010: Toronto (Canadá), na reuniom do G20. Neste confronto, mais de 500 manifestantes foram presxs e dezenas de outrxs ativistas foram parar em hospitais com inúmeras fraturas.

2013: Cairo (Egito). O Black Bloc aparece com forte atuaçom nos protestos da Praça Tahir, no combate e resistência ao exército do entom presidente Hosni Mubarak.

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