28 jun. 2011

Libertando os visons - Opiniom

Em finais de 2006 a escritora Teresa Moure criticava de cara as patéticas declaraçons dos grupos "ambientalistas" como Adega, Verdegaia, a Sociedade Galega de Historia Natural ou a Unión Protectora de Animais Federados de Galicia, contra as libertaçons de visons nas páginas do mensuário Novas da Galiza e consideramos interesante a sua recuperaçom dada a actual montagem política-judicial-mediática.

Mais umha vez, tivo lugar umha solta numha granja de visons e mais umha vez a notícia espalhou-se entre grande alarme social. Os grupos ambientalistas apressárom-se a condenar a acçom, apontando que os visons som carnívoros vorazes e podem desequilibrar o ecossistema. Com certeza será verdade, mas num país como este, onde se pratica com teimosia a imolaçom dos recursos naturais em benefício das construtoras, das papeleiras, dos petroleiros, surpreende-me a preocupaçom com os danos que podam causar os visons. Será que comem assim tanto?

O ambientalismo adopta amiúde a versom moderada da defesa do meio natural, umha versom com a qual penetrou na política institucional e com a qual pode ser burocratizado o movimento. Evidentemente, os espaços para a acçom política som infinitos; ora bem, o perigo está em promover acçons paliativas verdes sem nos questionarmos nada. Consumirmos produtos da linha ‘verde’, reciclarmos embalagens, usarmos combustíveis sem chumbo ou despejarmos menos detergentes daninhos às águas pode aliviar a nossa consciência, mas o mundo continuará igual que antes: nada verde e insustentável. O pensamento ecológico, na versom radical, obriga-nos a questionarmos a nossa realidade quotidiana por inteiro. Nom há nada de bom no consumismo ambiental porque o problema nom é conseguir que as pessoas consumam saudavelmente, mas que as pessoas que vivemos em sociedades dilapidadoras consumamos menos; nom se trata de exercermos o nosso poder aquisitivo responsavelmente mas de nom o exercermos ou de o fazermos com menos freqüência. E com isto tem muito a ver o assunto dos visons.

O visom é um mamífero carniceiro da família dos mustelídeos de cabeça larga, orelhas e patas curtas. A sua pele, de extraordinária suavidade, mesta e brilhante, é considerada um luxo para o abrigo e o adorno. Suponho que, se fôssemos lapons, se vivêssemos na tundra, ou na Sibéria, se estivéssemos todo o dia a trabalhar ao ar livre, seria natural querermo-nos apropriar da pele de um animal morto para nos cobrirmos. Mas a alta peletaria consiste no contrário: em reservar a melhor pele para cobrir pessoas que nunca estám ao relento, que debaixo do agasalho nom levam roupa abundante mas que vam quase despidas. Para que essas pessoas tenham umha marca de classe, centos de animalinhos amontoam-se em granjas fedorentas e deixam de viver a sua existência digna de animal selvagem que corrica, escudrinha, foça, dorme, fornica, respira para viver umha vida numha gaiola cheia de excreçons. Afinal vam esfolá-lo violentamente para que a pele luza o esforço e poda vender-se a preços de luxúria em estabelecimentos onde a maioria nunca entramos.

O assunto dos visons bate nas nossas consciências e fai-nos reflectir. Porque, mesmo um movimento de tanto fundamento ético como o ecológico, pode acabar absorvido polo capital. Se o ecologismo consiste em desafiar o actual estilo de vida, medidas como libertar os visons nom som tam violentas, nem tam excêntricas como costumam parecer através dos meios de comunicaçom: som desafios. Libertando os visons chama-se a atençom da sociedade para as condiçons de vida em que mantemos as outras espécies. Ser humano nom é ser melhor; é ser diferente e algo de responsabilidade deveria ir implícita na diferença, polo menos nas condiçons de vida que damos aos indivíduos que vivem nashttp://www.blogger.com/img/blank.gif nossas granjas… mas o capital nunca tivo ética. Com a libertaçom dos visons é destruída umha propriedade privada indecente, ainda que nom ilegítima segundo parece, a propriedade de quem se torna rico sobre o sofrimento animal. Surpreende-me que os grupos ambientalistas levem as maos à cabeça lamentando a atitude radical dos libertadores. Bem está que se preocupem com o ecossistema, mas com o argumento da ferocidade depredadora dos visons haveria que fechar os humanos, os depredadores mais ferozes que se conhece, ocupados sempre em dominar a natureza com mudanças irreversíveis. Porém, nunca ouvim que nos devessem meter em granjas. Por isso, tenho que dizê-lo, eu libertei os visons. E se nom o figem, gostaria muito de tê-lo feito.


Tirado do Novas da Galiza nº 48, que se pode descarregar aqui.

1 comentario:

  1. A reflexão da autora é interessante e acertada, bem como a sua crítica da hipocrisia de certas organizações ambientalistas. Mas o artigo não entra no cerne do problema: será que a introdução de visons americanos nos ecossistemas galegos tem efeitos tão prejudiciais como se diz? Dar uma resposta certa a esta pergunta é muito importante, porque não se pode resolver um problema ou ũa injustiça, causando outro problema ou outra injustiça maior. O fim não justifica os meios. Acho que qualquer um tem capacidade bastante para compreender isto. Ponhamos por caso que os animais criados nas quintas de peles não fossem visons, mas leopardos... Os liberacionistas, decidiriam então libertá-los também sem mais reflexão?
    Eu sou contrário ao comércio de peles e também sou contrário à cria de animais em gaiolas. Cada vez que se produz o assalto a ũa quinta de visons, irrita-me o sensacionalismo alarmista dos críticos e a sua falta de sensibilidade perante as condições de vida dos animais libertados. Não me incomoda a libertação em si, embora saiba que a maioria desses animais morrerão com violência nos primeiros dias de «liberdade», porque não conhecem o meio em que estão, nem sabem valer-se por si mesmos num meio natural. Só ũa minoria conseguirá sobreviver, esquivar os múltiplos perigos que os espreitam e aclimatar-se. Mas, mesmo assim, digo que não me incomoda a libertação porque eu sei que a introdução dos visons nos ecossistemas galegos, portugueses, espanhóis... não é assim tão má como no-la pretendem pintar. O que me preocupa seriamente é a grande quantidade de gente que apoia os assaltos, as libertações, sem fazer a menor ideia das consequências reais destas actividades nos outros seres vivos que nos rodeiam.

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