25 abr. 2013

O meu irmao terrorista e mais eu

Colamos da web da Rede de Apoio a Carlos Calvo "De Volta para Loureda" esta aportaçom de Charo Lopes que reçuma amor e companherismo falando de conversas, de assembleias, de comidas, da vida:


Quando Carlos (Paulo, Anjo, Olga) e mais eu viviamos no piso de aluguer da Avenida de Salamanca cocinhavamos sempre tortilha para as festas. Nom tinhamos tele, mas tinhamos um computador -sem internet- no que lembro termos visto só um filme umha vez, francés, acho, sobre um homem que tinha um tractor. A compra da comida faziamo-la conjunta, e nunca faltava queijo e iogurtes. Algumhas vezes Carlos trazia flans, e já o tenho visto mais de umha vez come-los de dous em dous…

Às vezes deixavamo-nos saudos e mensagens escritas no pó das janelas do descansinho das escaleiras -terceiro sem ascensor- do edifício de casas baratas no que estivemos aquele curso.

Na mesa e nos sofás de skay estilo anos cincuenta do salom acumulavam-se cartazes e livros de antropologia. Marinho Ferro e Marcial Gondar eram dos personagens mais referenciados nas sobremesas. Os temas estrela eram as meigas, a morte, os milagres e em geral a vida pre-moderna do rural galego que tam próxima nos era e ao mesmo tempo, que tanta curiosidade nos criava; das histórias da Santa Companha, até as formas de integraçom e exclusom social populares.

Às vezes enredavamos coa conversa depois da ceia e dava-nos a deshora. Carlos explicava-me a vida de Bourdieu para entender melhor os seus textos. Passava-me bibliografia de Zizek e de Bauman em padrom lisboeta. Foucault era o ídolo entre as nossas colegas da faculdade de Filosofia; o panóptico, os mecanismos repressivos do poder, o funcionamento da prisom.

Imaginavamos como seria a vida lá dentro, liamos relatos de fugas de Garfia, de Tarrio… As denúncias de torturas das presas políticas bascas, as cartas da prisom de Ugio e Xiana. As histórias das nossas paisanas dos GRAPO e do PC(r).

E sim, também cotilheavamos sobre o panorama independentista, sobre as piadas dos “lideres da revoluçom”, sobre as nossas aventuras e as das demais…

Jantavamos as quartas-feiras no comedor popular da Casa Encantada. Andavamos de assembleia em assembleia. Passavamos as tardes de chuva no local de estudantes da faculade de História, quando ainda era um espaço livre, e ali conspiravamos contra o processo de Bolonha, organizavamos trabalho e faziamos material. Escreviamos conclusons nas paredes. E algumhas vezes saimos a tomar umhas canhas, nas tabernas do casco velho onde nos pugeram tapas.

Depois voltavamos à casa, quase sempre deixando a malta ainda nos bares. A partir de certa hora a música tam alta nom nos deixava continuar o palique. E qualquer situaçom dava para novo tema: como som as relaçons sociais nocturnas, o porque da música tam alta, as características das conversas entre os decibélios de mais e o álcol…

Falavamos das relaçons líquidas, das sólidas, das formas de irmandade, de como podem existem irmás que nom partilham mae nem pai.

E foi assi como fomos fazendo-nos irmás, até hoje.

Hoje continuamos debatindo. Sobre o amor, sobre o Estado e a Revoluçom, sobre as nossas aventuras -de dentro e de fora dos muros-. Agora rimo-nos os 45 minutos que partilhamos no locutório e beijamo-nos atravês dos vidros, diante dos carcereiros, enquanto também se beijam o preso basco, o cigano e o árabe com as suas visitantes, metidas todas nas mesmas jaulas de cristal.

Depois despedimo-nos, erguemos o punho, surrimos e caminhamos arrastrando os pés. Ele para dentro, eu para fora.

Eis a nossa realidade sólida. Eis o nosso vínculo sólido. O nosso caminho. O meu irmao. E a nossa risa retumbando na sua prisom. E as nossas razons rebentando os seus muros. Nom conseguirom converter-nos em eles. Encerrarom-te, Carlos. Mas ainda somos nós. E seguimos ao nosso. Até que te ceivemos. Até todas sermos livres.

Charo Lopes

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